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sexta-feira, 11 de julho de 2008

A idade da peça ele sabe, mas e a do filho?

O patenteado Método Educacional Caruso

Não consigo concluir o que é mais triste dessa entrevista com Marcos Caruso. Se a idéia do filho dele, em casa, sozinho, sentado ansioso à mesa tarde da noite enquanto espera o pai chegar – sem saber que irá adormecer antes que seu projenitor apareça. Ou saber que, ao invés de criar um herdeiro responsável, Caruso preferiu dedicar-se ao teatro, criando esse tótem cultural que é sua obra artística.

Se bem que, levando em conta que a dedicação educativa de Caruso poderia transformar seu filho em uma versão humana de Trair e Coçar É Só Começar, até que valeu a pena.

Vai lá, Marcão, siga forte nas artes cênicas, pelo bem de seus netinhos!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O vazio assustador.

'Um corpo destreinado é como instrumento desafinado, em cuja caixa de ressonância há uma barulheira confusa e dissonante de ruídos inúteis, impedindo a audição da verdadeira melodia. Quando o instrumento do ator, seu corpo, é afinado pelos exercícios, desaparecem as tensões e os hábitos desnecessários. Ele fica pronto para abrir-se às ilimitadas possibilidades do vazio. Mas há um preço a pagar: diante desse vazio desconhecido surge, naturalmente, o medo. Até mesmo um ator de larga experiência, sempre vai retomar seu trabalho, quando se vê na borda do tapete sente esse medo de voltar - medo do vazio dentro de si mesmo e do vazio dentro do espaço. (...) Sentar-se imóvel ou ficar quieto já requer muita coragem. A maioria das manifestações exageradas ou desnecessárias provêm do pavor de não estarmos realmente presentes se não avisarmos o tempo todo, de qualquer jeito, que de fato existimos. (...) É importante que todos os atores reconheçam e identifiquem tais obstáculos, que neste caso são naturais e legítimos. (...) Quando atua bem, não é porque elaborou previamente uma composição mental, mas porque criou um vazio livre de pânico dentro de si.'

Peter Brook - A porta Aberta

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Conversa paralela

Esse povo do TI, sempre modesto. Mas alguém tem que fazer o trabalho sujo. Temos dois orgulhosos intergrantes do Teatro Insano apresentando trabalhos paralelos em São Paulo. Nosso diretor Marcos Lemes e o ator Valmir Junior estão participando da pequena mostra dos espetáculos de Cleiton Pereira (cara nota 10) no Satyros.

Marcus estrela Frankenstein, monólogo com texto e direção do Cleiton baseado naquela obra que você já imagina. O espetáculo é muito bom, e, segundo fontes minhas, passou por drásticas modificações para esta temporada. Cada vez mais se embrulhado em realismo.

Já o Valmir está no elenco de Ausência, uma montagem sobre a qual muito ouvi falar, mas pouco sei. Sinopse? "Ausência de expectativas para quem vive em banheiros ou estão em coma no hospital". Vai saber.

É o seguinte:

Ausência
Terças e quartas de novembro, às 22h30
R$ 15,00
80 lugares
80 minutos

Frankenstein
Quartas-feiras de novembro, à meia-noite
R$15,00
80 lugares
60 minutos

Ambos no Espaço dos Satyros Um, Praça Roosevelt, 214.

domingo, 4 de novembro de 2007

Meu nome é Gael

Ultimamente, eu tenho sido bem crítico em relação à sociedade em que vivemos. A brasileira mesmo. E isso se atenuou quando viajei a Brasília e vi a cidade decrépita que é a capital de nossa federação. O que me pôs a refletir sobre muita coisa e, a posteriori, a estender isso para o mundo das Artes.

Sejamos francos, quando um diretor como Hector Babenco, que fez bombas como Carandiru e outras e não faz mais filmes bons há anos (O Passado, seu último longa, é um desfile de equívocos com pequenos momentos de acerto; vale pela interpretação de Analía Couceyro), diz que "Não há ator brasileiro como Gael", dá um nojo e uma vontade de dizer: "Babenco, querido, uma palavra: senilidade".

O estado em que se encontra o mundo dos atores no Brasil é uma lástima. Num país como a Alemanha, segundo Rodolfo García Vásquez, em seu blog, o teatro é tratado como rei, rainha, máximo, supra-sumo. Novamente, franqueza seja dita, o teatro nesta república de canarinhos não vale um centavo. O povo (não distingo classes neste post) não quer ir ao teatro. Essa é a verdade.

Quem vai ao teatro hoje é quem, no mínimo, herdou o costume de alguém e o passou adiante com muita dedicação. Isso se vê claramente no seguinte exemplo: pais de colegas de cena só querem assistir aos filhos porque, obviamente, são seus filhos no palco. Meu tio, por exemplo, não me assistiu quando estreiei Amores Dissecados, mas na estréia de sua filha, ele estava lá. Não me ressinto por isso, pelo contrário, mas vale como argumento.

Quero dizer, não se trata de ser uma coisa de classe econômica. Não é o povo sem dinheiro que não quer ir ao teatro. São os brasileiros em geral. O que lhes chama a atenção é se a produção é cara, se tem ares americanizados (leia-se musicais), se tem famosos, se tem bastante coisa acontecendo em cena e se dá pra entender sem muito esforço. Ponto.

Agora, por quê? Herança histórica? Imbecilização endêmica? Ou adquirida? Manipulação do Estado? Falta de política governamental? Infra-estrutura? Falta de interesse? Tudo isso, e mais um pouco, com quase 100% de certeza.

Então, mais uma pergunta é: somos nós, responsáveis pelo Teatro de agora, quem devemos mudar isso encaixando o teatro nos moldes e gostos de quem assiste? Ou devemos perpetuamente lutar pela Arte em que acreditamos?

Não encontro resposta.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

O acaso é triste

Uma mulher morre olhando o rosto do motorista do ônibus, que acabou de atropelar um rapaz que olhava distraído para o corpo de uma dona-de- casa que pulou da janela, depois de ir a uma vidente charlatona. Assim, quase sem respirar, é o enredo da peça Últimas Notícias de Uma História Só, dirigida por Otávio Martins.

Para começar, o ator Alex Gruli é uma espécie de deus ou diabo, aquele ser emblemático que representa as forças onipotentes sádicas, você sabe. Com destreza e um tino cortante, ele é o narrador, por assim dizer. O Espaço do Satyros Dois, onde a peça está em cartaz, não se parece nem um pouco com aquele em que apresentamos o Amores Dissecados.


Com quatro "luminárias" que funcionam engenhosamente bem, o espaço foi todo coberto por cortinas grossas e pretas, transformando o porão em um Porão. E mais claustrofóbico do que ele já é. E é nesse cenário sufocante que se desenrola também a relação entre um sequestrador e sua vítima. Juntando esta história com o acaso do primeiro parágrafo, tudo é cerzido pelas mãos ágeis e intensas do personagem de Gruli.

E não é querer permear o óbvio, mas intensidade realmente faz a diferença. A força cênica dos atores agradou em cheio meus olhos, já tão cansados de interpretações over das últimas peças que vi. Luciano Gatti, Melissa Vettore (uma das mães do seriado Mothern) e Alex Gruli - já citado no parágrafo acima - tem aquela energia que os atores procuram tanto.

Tá certo que o enfoque do acaso aqui foi um tanto fatalista, como lembrou bem o meu namorado. Mas acho que a intenção era mostrar o qual frágil é a vida, onde um acontecimento só já é capaz de desencadear tragédias monumentais. O bater de asas da borboleta no Japão, provocando o tumulto das águas no Guarujá. Foi uma escolha cênica, acredito eu, ter preferido o acaso triste ao feliz.

Foi a única peça "grande" que assisti nas Satyrianas que acabou ontem e gostei muito. As outras quatro eram do Drama Mix (Olerê Olará, Bico Fino, A-Ma-la, Os Segredos) e variaram muito na qualidade. Confesso que é gostoso sair sem rumo na Praça Roosevelt, escolhendo peças a esmo e pelo nome. Acho, sim, louvável a iniciativa do Satyros em criar algo nessas proporções.

Ruim mesmo foi só ter que aguentar o cheiro de mijo, gente bêbada por todos os cantos (chegando a vaiar a Homenagem à Paulo Autran) e concluir que a avaliação geral do público das Satyrianas acabou sendo medida por quanto a cerveja estava gelada e não pela qualidade das peças.

Nós também nos apresentamos, lotamos e choramos horrores.... mas isso fica para outro post.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Eu esqueci de alguma coisa?

Tudo começa sempre com um esquecimento. Alzheimer é uma doença maldita. Um dia se esquece o nome do marido, no outro da filha, no outro como se usa o garfo. E aí, uma fina garoa mental faz manchar os pensamentos e tudo que sobra são borrões. Sei, porque na minha família já teve. E na de Kate, protagonista da peça A Graça da vida, também.

Na história da americana Trish Vradenburg (adaptada por Paulo Autran), a moça é uma roteirista de comédia famosa que aprende a lidar com suas ansiedade e com as de sua mãe Grace, uma dama da
high society americana, que desenvolve a doença.

Os olhares parados e vazios, as frases desconexas e o desespero dos parentes, tudo está lá representado sob direção do inventivo Aimar Labaki. Nathalia Timberg (Grace), veterana que é, está sempre inteirona no palco. Parece conhecer as nuances da doença e criou uma Grace forte e fragilizada ao mesmo tempo. Ponto pra ela.

Em compensação, o bonitinho Marty (Fábio Azevedo) só serve para isso mesmo, ser um gay (daqueles de munheca para cima) bem bonitinho. Só. O elenco, que ainda conta com o correto Emílio Orciollo Netto, a estridente Clara Carvalho e o casal terceira idade Ênio Gonçalves e Eliana Rocha, cumprem a que vieram sem novidades.

Guardo este parágrafo para a protagonista Kate. Acompanho Graziella Moretto, porque acho que ela se destaca nos trabalhos que faz. Mas naquele dia se cumpriu uma das leis do teatro: atores tem sim dias ruins. A sensação de vazio proposital da doente de Nathalia, parecia ecoar no não proposital de Graziella. Ela, sempre com timing de comédia, estava no piloto automático. Uma pena, mas compreensível. Tem dias que a gente não tá bem, né?

Agora o que não é perdoável é a cenografia mal disposta – sofás, cadeiras e afins jogados no palco- e os contra-regras entrando para mudar uma poltrana de lugar. Perdão, mas os atores não poderiam fazer isso? O figurino, fantástico e funcional até a metade da peça, perde um pouco da força porque pede uns consertos nas barras dos vestidos e dos casacos.

Apesar de tudo, vale sim a pena assistir. Piadinhas à parte, não vá esperando nada muito memorável, porque afinal algumas vezes tudo termina também em um grande esquecimento.


Obs: agora, se o tema da doença te interessa mesmo, veja o filme argentino O Filho da Noiva (2001). De chorar.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Não mexe comigo, não!

Eu sei que a modéstia do nosso companheiro o impede, então eu faço a parte. Uma acalorada discussão está rolando na resenha da Bacante feita pelo Valmir para o espetáculo José e Seu Manto Technicolor (que eu não vi e não gostei).

Não sei o porquê dessa mania de familiares, amigos, fã-clubes de grupos de teatro defenderem tanto uma peça resenhada. Uma espécie de contra-ataque raivoso só porque alguém não gostou do que viu. Se o espetáculo do seu amigo/filho é ruim, não sofram por isso. Aceitem o mal-feito. Aceitem o ruim, minha gente. O ruim é belo, o ruim é lindo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Apologia, culpabilidade e outros

Estou para escrever esse post há umas duas semanas...

Salmo 91
, pelo Guia da Folha: "o texto é uma adaptação do livro Estação Carandiru, do médico e escritor Drauzio Varella. Na trama, dez monólogos em que transitam personagens encarcerados como o sobrevivente do massacre Vavá e o travesti Veronique são interpretados por cinco atores".

O Santo Parto, pelo Guia da Semana: "a peça conta a história do padre José, vigário jovem de uma paróquia muito antiga, que entra em pânico ao perceber que está grávido. O padre recebe então a visita do Cardeal Quirino, fundador da freguesia, que está morto. Ali, diante da fantasmagórica figura do Cardeal, deverá dar explicações de seu desatino".

Descontadas as proporções em que essas duas peças me agradaram, o que não discutirei aqui, duas coisas muito estranhas, retrógadas e pungentes aconteceram com as montagens. A saber:

  • Uma ex-assessora do coronel Ubiratan Guimarães (aquele que ordenou a entrada dos policiais no Carandiru e que levou a culpa pela morte dos supostos e mal-contados 111 presos), de nome Karina Florido Rodrigues, "invadiu" o blog da peça Salmo 91 e disse umas afrontas juntamente com outros de seus apoiadores nos comentários. A produção do espetáculo, encabeçada pelo ator Pascoal da Conceição, a convidou para assistir. O SESC, logicamente, para lavar as mãos e posar de democrático, abriu as portas e cedeu espaço ao final da peça para que Karina e seus companheiros falassem (!), entre outras coisas, que era um absurdo um espetáculo fazer apologia ao crime, defender a imagem de bandidos e manchar ainda mais a reputação do homem "idôneo" que era Ubiratan. Tudo isso na frente de atores, diretor e dramaturgo, que depois tiveram que se defender.
  • A Liga Cristã Mundial divulgou em notícia no seu site que processará os atores de O Santo Parto por "ridicularizar" as crenças da Igreja Católica em um "espaço de homossexuais", espaço esse denominado de Espaço dos Satyros, no qual apresentamos Amores Dissecados na nossa recente temporada por lá. Cita também que a LCM está tomando providências jurídicas em desfavor aos atores e tentará responsabilizar cada um na medida de sua "culpabilidade".
É, foi isso que você leu, leitor. Olha, nós adoramos que o teatro provoque discussões. Mas dessa forma, é um pouco demais. "Apologia"? "Culpabilidade"?

A que ponto chegamos? Em tempos que até mesmo uma Rede Globo de Televisão muda completamente uma história, como é o caso da novela Eterna Magia, por causa de ligações telefônicas à Central Globo de Comunicação feitas principalmente por evangélicos; e um juiz arquiva o caso do jogador Richarlyson por dizer que futebol é um "jogo varonil, não homossexual" e supõe que se for o caso, que ele funde um clube e uma liga para homossexuais jogarem, bem, você pode desconfiar que, religiosamente falando, o Apocalipse já começou.



E a Besta mostra suas diversas faces.

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Post e comentário que geraram a ida de Karina à peça Salmo 91.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Uma Pilha de Pratos Na Cozinha, de Mário Bortolotto


Se tem uma coisa que me assusta é um texto em que as personagens vociferam frases escandidas, como se fossem poemas da pós-modernidade. Porque o que me pega é o fato de conseguirem dizer tanta coisa sem tanto. Resumir o problema da humanidade (ou da falta de) com aforismos dignos de um Nietzsche, tratar da vida e seus complexos meandros e retratar seres ficcionais com perspicácia é obra de dramaturgo amadurecido. E este é o caso de Mário Bortolotto. Depois de tantas peças escritas, seu nível de excelência, pode-se dizer, atingiu um grau de amadurecimento interessantíssimo.

Uma Pilha de Pratos na Cozinha foi concebida para o projeto E Se Fez a Praça Roosevelt em Sete Dias, e segue em cartaz no Satyros Um. De todos os textos encontrados no projeto, dois se destacaram: o de Roveri (A Noite do Aquário) e, agora vejo, o de Bortolotto. O que temos aqui é a história de Júlio (Otávio Martins), um misantropo, que está enclausurado em seu apartamento por conta própria enquanto sua pilha de pratos cresce na pia. Chegam três presenças em série que vão tirar a misantropia dos eixos: seu amigo Daniel (Alex Gruli), um amigo sanguessuga fracassado, o síndico do prédio e "homossexual enrustido" Breno (Eduardo Chagas) e Cris (Paula Cohen), uma mulher que tem um pequeno problema e que, por conta dele, quer se resolver com Júlio rapidamente.

Logicamente, sem uma certa violência interior contida, referências norte-americanas e jazz, não teríamos uma peça de Mário Bortolotto. Devidamente salpicadas, as personagens vão soltando frasezinhas aqui e acolá e os aforismos vão enchendo o ambiente. Tiradas ácidas, sarcásticas e inteligentes entremeadas com a inação das personagens, que sabem bem como analisar suas próprias vidas, mas não conseguem jamais se mover. A inércia as move, assim como a personagem Júlio que se esmera em permanecer-se sentada quase todo o tempo, bebendo e fumando. A inação quase em seu limite. Como se o movimento do mundo e seu tempero agridoce justificasse a análise apenas. Como se quisessem reconstruir o significado do mundo como filósofos pós-modernos que são. Mas, para ser Platão, precisa-se de mais do que álcool e nicotina.

Quem sabe bem disso é Otávio Martins, que aproveita a composição e destila veneno para todos os lados, sem um pingo de prazer. "Eu sou um misantropo", Júlio diz, e Otávio deixa transparecer que ter ódio pela humanidade não quer dizer que aplicar piadas e atirar sarcasmos faça de sua personagem um sádico. Pelo contrário, não há prazer em querer que todos explodam. Alex Gruli e Eduardo Chagas exploram o que há de importante de suas personagens, apesar de um pequenino mas nada incômodo exagero de Gruli. Paula Cohen, por fim, parece ser a personificação do alívio ao entrar, mas o entendimento da personagem Cris frente à morte é mais do que qualquer descoberta pode transcender e o peso de tudo aquilo cresce. Cohen segura a expressão, o sentimento, e deixa que Otávio pise nela mais e mais para depois aplicar o contragolpe final.

Aliás, o final. Muito comentado por aí. Eu esperava uma coisa surpreendente, mas é a beleza que sobressai. Reside na poesia. Se o texto todo coloca metralhadoras nas bocas das personagens, o final fala pelo silêncio. Ou pela trilha. "The Healing Game", de Van Morrison. Enrolada na situação, uma das personagens finalmente, nesta cena derradeira, descobre que precisa sim desaguar tudo antes de ser algo. Poeticamente, chove lá fora, onde esta personagem se lavou antes de voltar à cena. Chora essa personagem frente à súbita descoberta da vida através de uma morte que está próxima. E a pilha de pratos está, efetivamente, sendo lavada. Forte. No lugar dessa personagem, não sei se atingiria essa grandiosidade de herói. Talvez eu apenas quebrasse todos os pratos ao invés de lavá-los.


Uma Pilha de Pratos na Cozinha. Direção e texto de Mário Bortolotto. Com Otávio Martins, Alex Gruli, Eduardo Chagas e Paula Cohen. Em cartaz às sextas, sábados e domingos no Espaço dos Satyros Um, às 22h30.

terça-feira, 10 de julho de 2007

O Santo Parto, de Lauro César Muniz

Existe alguém que interessa em O Santo Parto, de Lauro César Muniz, em cartaz no Espaço dos Satyros Um: ele atende por Marco Antônio Pâmio. Muito elogiado em sua atuação anterior no espetáculo Edmond, de David Mamet, dirigido por Ariela Goldmann (ele ganhou o APCA de Melhor Ator em 2006), Pâmio é o único que chama atenção.

O Santo Parto é uma comédia de costumes que coloca a Igreja em xeque e ainda tenta defender a causa homossexual e o sincretismo religioso. Nessa história, o padre José (Marco Antônio Pâmio) engravida e está no dia de seu parto. Entretanto, apavorado, ele não sabe como vai dar à luz. Eis que, por acontecimento divino, as portas da igreja desaparecem e do retrato da parede sai o cardeal Quirino (Walter Breda), para lhe dar uma lição de moral. O texto gira, gira, gira, até que São Jorge ou Ogum (Raoni Carneiro) chega para ouvir o padre e, logicamente, salvá-lo.

O texto de Lauro César Muniz é muitas vezes didático, diletante e maniqueísta. Explica os problemas da igreja, da homossexualidade e das religiões afro nos mínimos detalhes. Completamente pró-homossexuais, o texto mostra um homossexual que é aparentemente castigado com um gravidez por ter feito sexo com um homem, para depois de tantas agruras, ser salvo pela intervenção de entidades simpatizantes, num tremendo esforço do roteiro em trazer o sincretismo religioso como compensador e intercessor da Salvação. A Igreja figura como o demônio, a besta, a destruidora do amor de verdade, da fé, a usurpadora de Deus nesse mundo. A certa altura, uma escrava simula sexo oral no cardeal, apenas para simbolizar como um membro da Igreja pode ser "rebaixado à condição humana" e demonstrando que o lado "inimigo" é destituído, sim, de moral também: não é um lado perfeito.

Muniz ainda resvala em certos pontos numa cafonice que poderia ser muito bem-aproveitada pela direção de Bárbara Bruno, mas esta, por sua vez, desenvolve um espetáculo que beira o constrangimento como nas cenas em que entram atores apenas para mudar o cenário de lugar e sair. Numa delas, um heavy metal toca e os atores entram com jaquetas de couro e gritam "Angra! Kiss!", referência ao provável nascimento da Besta. Na passagem na qual o padre descreve como conheceu o jovem Elvis (o mesmo Raoni Carneiro), o jovem canta Fever, a canção de Madonna. Outro ícone óbvio e ainda com direito a passos coreografados e estalos de dedos. O problema não é tanto a obviedade, mas o tratamento. Afora isso, há a seqüência na qual Ogum canta um rap representando, talvez, "o canto dos excluídos", entretanto soando muito deslocado.

Raoni Carneiro não consegue construir algo. Carneiro é monocórdico. Adota um tom grave como Ogum e sobe à normalidade como o menino Elvis. Mas só. Suas inflexões são as mesmas, invariavelmente. Walter Breda serve como contraponto à Pâmio no início do espetáculo. Enquanto isso, restam os outros atores, meros instrumentos da encenação, cujas aparições se resumem à figuração sem função que não a de contra-regras cênicos. Credibilidade somente a de Pâmio, como já foi dito. O único em que acreditamos, mesmo sabendo que, na verdade, ele está se esforçando para acreditar.

A encenação infelizmente não chega ao espectador. O monólogo do padre José e, de certa forma, o encontro dele com o cardeal seriam o suficiente. Depois da entrada de São Jorge e outros, a peça se perde e parece interminável. Marco Antônio Pâmio é quem merece a única boa condecoração.

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Clipe de Madonna, Fever

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Melodramecão

O gênero Melodrama entrou em declínio há algum tempo (lá pelo final do século XIX, com a vinda forte do naturalismo), vindo a se incorporar à estrutura dramática pós-moderna assim como todos os outros gêneros, diluindo-se assim na categoria DRAMA (cujo cerne quer dizer AÇÃO, afinal, teatro é ação). Hoje, não se fala mais em Tragédia, Comédia, Melodrama, Farsa, Epopéia, Épico, Tragicomédia, Sátira, Paródia, Vaudeville e outros separadamente (salvos os casos em que propositalmente tenta-se emular os gêneros e subgêneros de outrora). A estrutura pós-moderna é senão um recorte destes gêneros em maior ou menor grau, dependendo do que se quer atingir.

Dito isso, feliz foi a minha entrada em um SESC Pinheiros lotado para ver, atualizar, regurgitar, antropofagizar e gargalhar com Melodrama, da Cia. dos Atores. O gênero em declínio estava todo ali. E tirava sarro de si mesmo. A interpretação artificial, exagerada, over; as reviravoltas típicas na trama em que qualquer um pode ser filho/irmão de outro; o mel escorrendo em todas as situações; o formicida com guaraná de Nelson Rodrigues; as radionovelas para donas-de-casa (atualizadas para as telenovelas de hoje) em que os atores zoam entre si e de repente incorporam o espírito do melodrama ao falarem no microfone; o maniqueísmo; as homenagens ao melodrama francês pastiche do século XVIII, o americano desajeitado das séries de TV e o espanhol/mexicano/latino açucarado e fatalista, além das óperas melodramáticas do século XIX.

Comemorando seus 19 anos, a Cia. de Atores trouxe três peças de seu repertório para o SESC Pinheiros: este Melodrama mais os espetáculos Ensaio.Hamlet e Gaivota - Tema para Um Conto Curto. Melodrama ganhou o Prêmio da APCA em 1995 e com razão. Enrique Diaz colocou tudo ali através de processo colaborativo. O tango (Piazzolla algumas vezes), músicas de Cauby e o Ne Me Quitte Pas de Edith Piaf em francês e espanhol. Tudinho. A pesquisa leva a platéia ao delírio, pois reconhece já os signos do gênero e também os truques que deveriam levar a platéia aos prantos, mas isso não ocorre mais. Não é à toa que Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, agora em cartaz nos Parlapatões e resenhado aqui, provoca risos apenas. Disse a Bravo! na edição de julho/2007 para a peça de Nelson:

"Preste atenção: Em como os tabus escancarados por Nelson Rodrigues nesta obra escrita em tom de tragédia há mais de 50 anos já não provocam indignação na platéia. Ao contrário, agora a peça arranca risos em alguns momentos."

Pois bem, o que Alexandre Reinecke não arrumou e tampouco evitou com Álbum, Diaz usou a seu favor.

Destaque para o elenco feminino encabeçado por Drica Moraes (surpreendentemente ótima), Bel Garcia (com momentos hilários) e Suzana Ribeiro (perfeita; na foto acima). O elenco masculino não fica atrás: estão lá Marcelo Olinto, Marcelo Valle, César Augusto e Gustavo Gasparini. Diaz segura os atores na precisão do gesto executado milimetricamente: exagerado sim, descuidado não. Ainda desenha a cena com a iluminação de Maneco Quinderé, abusando de focos e corredores, e a música de Carlos Cardoso, obviamente assinalando mais do que o ponto o que está acontecendo.

Mas o que chama a atenção é o texto de Filipe Miguez, que trabalha com apenas três histórias, intercalando-as e tirando o máximo de mel e açúcar das situações. Pontos para as cenas da novela Laços de Sangue e a história de Doralice. O problema reside na personagem Geraldo, um draminha insosso perto dos outros, que acaba enfraquecido, mas que de longe não afeta o espetáculo.

O jogo cênico é o que vale. É um espetáculo de atores. Por vezes, é possível achar que os atores estão improvisando, se não é que não estão. Agora, apenas Gaivota fica em cartaz até o meio de julho. Uma pena. Entretanto, a Cia. dos Atores ganha mais um fã. Ou 500 e tantos do SESC lotado.

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Site da Cia. dos Atores

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Faz de conta que ninguém está só lá fora

Prosseguindo com as resenhas de peças que saíram de cartaz nessa semana (ops!), Faz de Conta que Tem Sol Lá Fora é um espetáculo que você não deveria ter perdido. Isso porque trata de maneira simples e eficiente a relação de pessoas solitárias com o mundo que as cerca.

Escrito pelo faz-tudo-lá-do-Satyros Ivam Cabral, o texto apresenta um homem solitário, interpretado por Nilton Bicudo, que entra em um apartamento do seu prédio ao ouvir a música De Onde Vem a Calma, de Marcelo Camelo (na voz de Rubi), saindo por uma porta aberta. É lá que ele encontra a moradora vivida por Jerusa Franco.

Eles dividem uma conversa, chá, biscoitos, medos, dúvidas, arrependimentos, esperanças e um teto enquanto chove lá fora. A solidão é desdobrada além dos caminhos que levam a ela. Morte, esquecimento, falta de aproximação com a realidade. Tem muito mais que isso no cotidiano que vem depois do (auto)abandono, dia após dia, sabe-se lá por quanto tempo.

Aos poucos, as personagens aparecem mais próximas do que pensam. Precisam das mesmas coisas e, talvez mesmo por isso, repelem-se da possibilidade de estarem juntas ali. Distantes, ela em sua frenética relembrança, ele em seu estático conformismo, parecem sempre a um passo de colidirem. Se acontece, não é explosivo. É de pequena chama, quase sem combustível, mas ainda iluminante.

De atores generosos, aliados no palco. Dividem a cena de ações e reações em medida de conversa verdadeira. Ali, no pequeno cômodo, o mover-se e o não se mover têm igual peso e cedem régua para o mundo particular e solitário da metrópole mecânica.

Bela estréia da diretora Aline Meyer, que dá espaço às personagens para que possam contar sua história. Tudo se desdobra ao seu tempo. Sem modismos ou extravagâncias. Só a situação, em seus 50 minutos. E toda a torrente de emoções reprimidas, oposta à natureza que segue nas águas que rolam inconfinadas do lado de lá da janela.

Atualizado: a peça agora está nas matinês do Satyros. Sábados às 17h, domingos às 19h.

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Blog do espetáculo (por Jerusa Franco)

domingo, 1 de julho de 2007

Impostura

Mário Bortolotto falando sobre a arte da literatura e Fernanda D'Umbra tresloucada. É quase possível dizer que alguém os viu ou ouviu em algum bar na Roosevelt. Não. Era na peça mesmo. Impostura, de Marici Salomão. E Salomão foi inteligente, demais, em brincar com o que se espera dos atores. Adicionando uma pitada de Patrícia Leonardelli para tirar a referência e está feita a história.

Bortolotto e D'Umbra interpretam dois bêbados. Talvez um casal, embora não se saiba ao certo qual a relação daqueles dois. Eles têm algo em comum: se detestam. A bêbada de D'Umbra chega ao apartamento com seu recém-conhecido affair, uma mulher - as duas loucas para se divertirem no apartamento, mas a triste figura do escritor em decadência ainda está no sofá. E bebe. Acontece que os dois discutem tudo entre si e demonstram uma repulsa e um afeto desmedidos, lutando, colocando a personagem da "amante" ao largo. Esta, por sua vez, se mostra interessada em conseguir entender o que se passa ali. E as coisas vão tomando proporções maiores.

Fernanda D'Umbra, que também dirige o espetáculo, consegue construir um clima tão tenso entre eles, enterrando a personagem de Bortolotto no sofá e colocando um ar ingênuo a Leonardelli. Ainda tira de si uma interpretação muito intensa. O que é esta mulher girando e andando ao léu pelo apartamento em busca de algo, mas não se sabe o quê? Quando levanta seu poderoso registro vocal, D'Umbra estremece tudo. E sua "boêmia" é autêntica.

Surge então um Mário Bortolotto que se restringe a se mexer pelo sofá e há que se assinalar como dá medo quando a personagem se mete a levantar: o "monstro" que a personagem de D'Umbra insiste em repetir a Bortolotto ecoa na voz dele. Um registro de monstro. Por vezes incomoda. Mas é muito legal. Finalmente, Leonardelli contém-se diante do exagero dos dois, conforme pede a história, e cria uma balança que pesa a seu favor. Um magnetismo deslumbrante entre ela e D'Umbra se instala e a tensão vai crescendo.

Sucede que não se sabe para onde vai aquela história. Há algo acontecendo. Marici não deu o nome de Impostura ao espetáculo por acaso. Emergem a literatura, a inspiração, a musa, os respectivos clichês. O desespero de uma mulher para poder fazer a inspiração de um escritor medíocre aflorar trazendo uma outra mulher à baila. Uma certa segurança ingênua (um ótimo enigma) da visitante que insiste em dizer que 'tenta" escrever e parecer interessante. E o escritor: o retrato de um homem que espera, não alcança e pensa que pode atingir a alma humana por baixo.

A impostura real é de todos. Final lindo.

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Blog de Mário Bortolotto
Blog de Fernanda D'Umbra
Blog de Patrícia Leonardelli

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Na Noite da Praça

Narrativas entremeadas, ação veloz, quatro pontos-de-vista, uma conclusão: a subjetividade é sempre a mais forte. Não importa como consigamos narrar um fato: ele vem daquilo que você depreendeu. Sempre. Contardo Calligaris diria melhor. É assim que Na Noite Da Praça, mais uma do projeto E Se Fez a Praça Roosevelt em 7 Dias, se configura. Dirigido por Luiz Valcazaras, o texto de Alberto Guzik pretende expôr esse olhar subjetivo da forma mais deliciosa que pôde encontrar - a comédia.

Uma garçonete (Marília Di Santis), um estilista (Álvaro Franco), um morador carrancudo (Rodrigo Fregnan) e um garoto de programa (Ricardo Corrêa) dividem o espaço cênico na tentativa de colocar na luz o que acham sobre um acontecimento: o estilista foi pego em flagrante na Praça Roosevelt com a boca em outro lugar - que não a botija - de um garoto de programa que, por acaso, é menor de idade. E os relatos vão se costurando rapidamente enquanto cada personagem defende o seu ponto-de-vista, olhando nos olhos do espectador. O mais gostoso é que a espontaneidade da interpretação permite que os atores joguem constantemente com a platéia. Houve um momento em que ri de uma reação do estilista e ele me devolveu um sorriso sincero que tinha tudo a ver com a piada. No olho, na hora.

Valcazaras transforma aquele amontoado de informações em um espetáculo quase musical, com direito a spots em momentos dramáticos, flashbacks, subidas em escadas, transformações de personagens, cantoria e, óbvio, um histrionismo hilariante. Os atores desfilam literalmente na passarela construída com a colocação de duas arquibancadas contrapostas. A coxia é exposta, os atores descontróem suas personagens à vista da platéia e envernizam a história cada vez mais. Por causa do elenco afinadíssimo também.

O texto de Guzik facilita, é verdade. Assim como O Amor Do Sim, é repleto de referências pertinentes àquele pedaço de terra teatral e junta as interpretações estereotipadas para montar um mosaico dessa praça, que reúne espetáculos tão diversos e teima, ainda bem, em dissertar sobre a diversidade, seja ela num momento dramático, seja ela em um momento cômico. E no cômico, olha, a gente rola de rir.

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Blog de Alberto Guzik

quinta-feira, 28 de junho de 2007

A Noite Do Aquário

O storyline da peça reverberou na história pessoal de um ente querido. A família, as loucuras de sair de casa, como as relações ficam conturbadas quando têm de ser retomadas. A atual situação desta pessoa poderia ser muito bem o que aconteceria se A Noite Do Aquário, de Sérgio Roveri, não tivesse o desfecho que teve. Composta por três tristes figuras, a desmantelação do seio familiar é o mote do espetáculo.

Parte integrante do projeto E Se Fez A Praça Roosevelt em 7 Dias, empreendido pela Companhia Os Satyros, que finda nessa semana, temos uma história há muito recontada, mas agora poeticamente transposta ao teatro. A mãe (Clara Carvalho) recebe a inesperada visita do filho mais velho, José, (Germano Pereira), após 8 anos de exílio e apenas 4 cartas endereçadas à família. Ressentida, ela luta para não projetar no filho a imagem do marido que saiu para São Paulo trabalhar e nunca mais voltou. Completa o triângulo o filho mais novo, Pedro (Chico Carvalho), que se coloca entre o apoio à mãe e a saudade do irmão.

Por falar em Chico, muitas vezes a bondade registrada na leveza de sua atuação e o excessivo gestual destoam da simplicidade contida do espetáculo, mas Clara Carvalho, conforme impressões de amigos, é a "mulher que parece que vai explodir a qualquer momento" e é verdade. Clara segura a intenção no olhar, explora a força interior e coloca-se à frente dos outros dois. Germano é correto em seu José. Junta-se a aridez da concepção, conjugadas à luz, ao som e à cenografia, trazendo um contraponto especial com a água sempre relatada do porto fictício onde moram a mãe e Pedro, graças à mão do diretor Sérgio Ferrara.

A chegada do forasteiro, como sempre, é o fio que desestabiliza aquela aparente calma na ilha da qual todos estão saindo - o porto vai fechar; a solução reside em José. O trauma da perda do marido é o que vai destruir tudo. Sobram apenas a melancolia da lembrança da mãe no dia em que foi tentar encontrar o marido em São Paulo e se deparou com o prédio em forma de onda (o Copan) e a praça que foi inaugurada com a voz de Elis Regina (a Roosevelt).

O que sobrevem é a metáfora da raiz da árvore que consegue atravessar o concreto. O instinto de liberdade, quando chega, não pode ser controlado. E é o que faz a mãe no desfecho da peça. Voltando à pessoa a quem me referi no começo: hoje, o problema é fazer com que aqueles que se quis salvar voltem para a ilha, para conseguir, enfim, se libertar. No caso do espetáculo, apesar de ser uma saída hedionda, ainda assim é belo e poético. Como o cair da água no rosto árido.

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Blog do Sérgio Roveri

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Para ver de longe

Dalton Trevisan é dos meus queridos. Sou muito desconfiado de ditas adaptações e inspirações sobre sua obra. Fato é, muita gente não o entende. Pensam que ele é mais sobre uma coisa, quando na verdade é sobre outra.

Educação Sentimental do Vampiro, da Sutil Companhia de Teatro, pensa que é sobre uma coisa, mas na verdade é sobre outra. Trataram a obra de Trevisan como uma coisa banal, uma observação suja e simplista sobre a vida secreta de cada um. Não é. Não há traços da observação cínica do autor, nem seu cuidadoso esmero em retratar tanto com tão pouto. O Trevisan capaz de novelas de apenas um parágrafo não aparece no palco, pelo contrário, tudo é meio exaerado, existe em escala descomunal. Dos gestos às músicas, tudo é tão maior do que deveria... A narração, por exemplo, recurso constante, enche tanto o palco de palavras que faz o autor soar como um homem verborrágico e acelerado. Falsamente.

Na minha arrogância de sujeito desconhecido, digo que Felipe Hirsch não entendeu a obra de Trevisan. Adaptou qualquer coisa que lhe fosse interessante, pinçou na maioria bizarrices sexuais e foi lá, montar uma versão para Jerry Lewis da obra do vampiro de Curitiba.

É peça para ver de longe, porque, de perto (ali, na primeira fila) além de ser difícil captar tudo o que ocorre no palco sem se distrair pela amplitude, é possível notar detalhezinhos que incomodam, as joelheiras dos atores, a produção que entra durante o blackout pra mover o cenário, os atores se movimentando impacientes na cochia.

Incontáveis blackouts. Tudo numa tentativa de pontuar e diferenciar histórias que, no final das contas, são todas a mesma. Educação Sentimental é um grande espetáculo de 2 horas que conta a mesma coisa achando serem várias diferentes. E o riso fácil, claro, das escatologias e gestos desengonçados. Porque não deixam a comédia para quem é do ramo, meu deus?

Não posso nem dizer que fiquei decepcionado, não sinto que um dos meus autores preferidos foi manchado. Nem era ele lá, mesmo. Estava mais para um Nelson Rodrigues gótico adolescente, fazendo intercâmbio em Londres para falar mal da "burguesia" lá do Brasil.

Para quem quiser arriscar, está em cartaz no Teatro Popular do SESI, na Av. Paulista, por 3,00 mangos.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Álbum de Família

Um SESC Consolação quase lotado comporta a apresentação da sexta-feira de Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, protagonizado por Denise Weinberg (na foto, abaixo, à esquerda), Cacá Amaral (ao lado de Weinberg com Rennata Airoldi no colo) e Ângela Barros (acima, de óculos) e dirigido por Alexandre Reinecke. Só esse breve currículo já seria o bastante para tornar a peça um evento marcante. Infelizmente não o é.

A história por si só é uma cacetada. Jonas (Cacá Amaral) é apaixonado pela filha Glória (Rennata Airoldi) e ela por ele. Por este motivo e por um acontecimento passado, ele procura garotas "puras" com a ajuda da cunhada Rute (Ângela Barros), também apaixonada por Jonas. D. Senhorinha (Denise Weinberg) assiste a tudo e mantém-se impassível. O tumulto revira-se mais quando os filhos retornam para o lar: Glória, expulsa do colégio interno por se envolver com uma garota; Guilherme (Gabriel Pinheiro), apaixonado pela irmã, castra-se e abandona o seminário à procura de Glória; Edmundo (João Vítor D'Alves), expulso pelo pai, apaixonado pela mãe, abandona a mulher com quem recentemente se casou. Por fim, Nonô (Eldo Mendes), enlouquecido após grande trauma envolvendo a mãe, corre nu, como um selvagem, mata afora.

Reinecke trouxe o Nelson Rodrigues ipsis litteris, com uma cenografia estilizada, porém pouco funcional e até mesmo óbvia, com janelas ao ar e vidros quebrados. A trilha pontua e serve de transição. Só. Trazer o texto do dramaturgo pernambucano sem alterações reflete alguns problemas da encenação: a começar pela própria platéia, que mais se diverte do que pensa diante dos diálogos específicos do autor. Rodrigues adorava a causticidade e a ironia de seu texto e sabia que a platéia teria acessos de riso, mesmo que risos nervosos. Incômodo foi perceber que, mesmo quando o riso não era pretendido pelo texto, ele acontecia. E aí? Problema do recifense?

Não. Problema do elenco. Do diretor. Aquelas falas tem uma especificidade que necessita de grandes cuidados. O problema é que a maioria do elenco entende o clichê de Nelson Rodrigues: diálogos passionais. Entende-se que todas as personagens do Anjo Pornográfico eram arrebatadas de paixão e por isso quase todas as falas dos atores eram gritadas, avolumadas, apaixonadas, mais ou menos como as pessoas pensam que Shakespeare é. Daí que é um passo para a comicidade plena em uma peça séria. Salvos os diálogos do Speaker (Riba Carlovich), que são tremendamente engraçados e contrastantes, poucos são os momentos de humor, pelos temas pesados, e o histrionismo passional lima o público de perceber os reais sentimentos de todos aqueles complexos personagens.

Além disso, as soluções cênicas às vezes parecem pastiche, como no momento em que Guilherme atira em uma das personagens. Sua fala é tão descuidada, assim como a ação de pegar a arma e atirar - seguida de um som de tiro extremamente artificial (sabemos que veio da caixa de som - poderia ser um som ao vivo, uma tábua batendo ao chão, por exemplo) - que a platéia ri diante da morte de uma das personagens. Rodrigues desenvolvia um potencial muito grandioso para a tensão, armando bate-bolas constantes, interrupções, sobreposição de planos, desvios nas histórias, portanto as soluções cênicas têm de caminhar e respirar junto com o texto.

A salvação do espetáculo se dá pelos experientes Cacá Amaral, Denise Weinberg e Ângela Barros, brilhantes como sempre. Apesar do registro corporal de Tia Rute ser um pouco eloqüente demais (muitos braços estendidos), Ângela oferece uma credibilidade forte à sua Rute. Amaral constrói um Jonas amargo e forte, apaixonado sem necessidade de gritos. E Weinberg, em sua quarta peça do dramaturgo maldito, brilha como D. Senhorinha, numa composição irônica, frágil e altiva ao mesmo tempo, sem exageros, resplandecendo uma sensualidade feminina que não perpassa aos olhos de Jonas até o final, quando este reconhece na mulher o quê da filha Glória. Weinberg não se deixa enganar pela paixão e transparece da matriarca aquilo que apenas deve, nada mais.

Na contabilização de prós e contras, creio que Álbum de Família seja um espetáculo que a platéia gosta. É correto muitas vezes, mas sem ousadia. E parte do elenco que interpreta os filhos deve prestar cuidados a suas atuações. Menos paixão, menos histrionismo. Menos é mais, se diz muito hoje. Assim, platéia, olhares direcionados para o trio Weinberg-Amaral-Barros. Estes valem, sempre.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

O Amor do Sim

Se existe uma atriz que pode personificar o TEATRO, essa é Ângela Barros. Sempre surpeendente, de uma energia fortíssima, uma mãezona, tal e qual uma Cacilda Becker de nosso tempo. Se Cacilda dizia que "se fingia que cantava, todo mundo acreditava", Ângela pode dizer: "se eu interpretar o próprio Teatro, as pessoas irão acreditar". E é isso o que acontece em O Amor do Sim, em cartaz no Espaço dos Satyros Um, na Praça Roosevelt.

Ela literalmente rouba a cena dos outros competentíssimos atores nessa comédia de Mário Viana, integrante do projeto E Se Fez a Praça Roosevelt em 7 Dias, com uma peça para cada dia, ligada à Praça que abriga vários teatros. O Amor do Sim é a de segunda-feira. Comédia leve, como deve ser o começo da semana. Entretanto, Viana insere pitacos interessantes, aproveitando o encontro de quatro personagens distintas: o espírito do Teatro, um iluminador (Otávio Martins), uma manicure (Flávia Garrafa) e um homossexual (Alex Gruli).

A manicure Sueli foge da barbárie que assola o mundo lá fora e é salva por um iluminador, Louro, que a ajuda a se esconder no teatro. Eles acabam se interessando um pelo outro quando descobrem a existência do espírito do Teatro, de nome Dirce (Ângela Barros). Entretanto, o homossexual Buri surge, também fugindo do caos, para colocar fogo na relação entre o artista e a esteticista.

Aparentemente despretensiosa, a comédia lida com situações para provocar o riso, muitas vezes auto-referenciais e metalingüísticos, não bastasse a cenografia reproduzir o Espaço Um dos Satyros na verossimilhança-espelho. Só faltava cópias do público sentado. Sueli estranha aquele teatro, o teatro não-convencional, sem drapeados e ornamentos. É a voz do dito "povão", que credita ao Teatro a alcunha de "difícil de ser entendido" e elitista. Quando a manicure diz a Dirce sobre as novelas, o espírito do Teatro quase se apaga.

A comicidade surge desses tipos, logicamente: um iluminador descolado (porque se entende que gente de teatro é assim), um homossexual afetado e uma manicure alienada. As interpretações estereotipadas, numa primeira análise, seriam passíveis de crítica ferrenha, já que é o que se faz atualmente: qualquer falta de complexidade de personagem é tremendamente criticada; tipos só na Commedia Dell'Arte... Mas eu não achei que foi o caso. Há uma proposta.

Os tipos não pretendem atingir só o riso. Na verdade, servem a múltiplas funções: abrangem a variedade de pessoas na Praça Roosevelt (gays e pessoas da classe teatral) e o povo que desconhece o lugar (moradores da periferia). Objetivam o macro, o foco maior: a Barbárie contra a Arte, o Teatro, o Povo, os Artistas e os Excluídos. Além do mais, os detalhes de composição que cada ator utilizou para as personagens retira o viés pejorativo do "estereótipo" daqueles seres ficcionais. Ponto para Alexandre Reinecke, o diretor, e os atores.

Com todos esses prós, um contra me deixou de dar nota 10 à comédia: a resolução rápida dos conflitos estabelecidos numa lógica muito bem aceita para comédias românticas, mas inaceitável para dramaturgos e encenadores experientes. Entretanto, a peça diverte e é crítica, coisa que poucas comédias hoje fazem. Portanto, relevemos.

O Amor do Sim. Direção: Alexandre Reinecke. Elenco: Ângela Barros, Flávia Garrafa, Alex Gruli e Otávio Martins. Onde: Espaço dos Satyros Um, Praça Roosevelt, 214. Quando: Segundas, 19h. Até 30 de junho.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Pra rir e aplaudir de pé

São 17 atores em cena. Entram gritando, escandalosos com roupas escandalosas, com conversas escândalos com a platéia e com máscaras. Essa é a melhor parte.

Vem da Comédia Dell'Art a idéia das tais máscaras. Além de máscaras, quase toda comédia, permite muita façanha em cena como acontece no espetáculo: Avaros - um estudo barato sobre a mão de vaquice, da Formação 8, da Escola Livre de Teatro.

O espetáculo é longo, cerca de duas horas. Entrelaça três histórias em épocas diferentes que supostamente se encontram na mesma peça por um equívoco; até os personagens acabam por interromper a cena uns dos outros sem querer (desculpa, óbvia, para mais risadas). O que os atores fazem em cena é o que ganha o público por duas horas de espetáculo. Um vocabulário comum, escrachado, traços corporais exagerados, máscaras em alguns personagens porém, não em todos e no pés de cada ator, um tênis all-star. E muitas graças com a platéia que aceita cada (suposta) gafe de sorriso aberto.

Avaros - um estudo barato sobre a mão-de-vaquice - de Newton Moreno, com direção de Georgette Fadel. Em cartaz aos sábados e domingos, às 21h, no teatro Conchita de Moraes (pça. Rui Barbosa, s/ n - Santo André). Entrada franca.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Há algo de over no reino...

Quando você entra no teatro, logo dá de cara com os quatro atores em cena, bebendo, fumando e rabiscando uma enorme lousa negra com giz branco. Num ambiente soturno, o aroma fica por conta das centenas de bitucas de cigarro jogadas no chão. E o espetáculo corre com os atores desfilando diversas visões sobre a morte. E por que não, sobre a vida. O giz se transforma em ferramenta inteligente para os cenários que vão sendo rabiscados conforme as histórias vão se desenrolando.


A peça é ADUBO ou a Sutil arte de escoar pelo ralo, do grupo brasiliense TUCAN (Teatro Universitário Candango). Várias coincidências me fizeram preferir ver essa peça ao invés da Mostra do Cemitério de Automóveis, que era meu objetivo inicial. O grupo de Brasília também foi formado numa faculdade e assim como o Teatro Insano, está em cartaz com a peça de autoria própria desde de 2005, tal qual nosso Amores Dissecados. Outra coisa que me chamou a atenção foi a pesquisa de tema que o grupo fez. Oito meses pesquisando a morte. Tema esse que me fascina na mesma medida que o amor.

ADUBO é uma peça irônica, porque o que chama a atenção nela, é também o que a condena. O texto bacana e ágil funciona em sincronia com a coreografia (literalmente) dos corpos dos artistas. Apesar da expressão corporal incrível (algo que como atriz iniciante, sei que é muito difícil de conseguir), há algo de over no reino. Em alguns momentos, a peça sofria pelo "teatrar" demais. Acredito que o ser "over" era completamente consciente no grupo, dado a maquiagem negra na cara, os comprimidos aos montes que os "mortos" tomavam e o figurino. Até aí, tudo ok. Mas senti que algo ia além do consciente e escapava como exagero despercebido, principalmente na atriz Rosanna Viegas, fora do timing dos outros atores.

Assim como a morte, algo ronda o pescoço do grupo. O expediente dos atores e da direção ficava o tempo todo escrito na grande lousa negra, dividindo espaço com os criativos desenhos. No programa da peça, uma declaração de Fernanda Montenegro elogiava os atores. É bacana, sabe... mas a pergunta é: precisa?

O toque a mais do perfume condena o agradável aroma e o transforma em uma leve náusea.

Vale pelas várias saídas (de mestre) cênicas, pelo texto engraçado, pela pesquisa teatral e pela energia que não despenca nunca durante os 70 minutos de espetáculo. Aliás, energia realmente faz TODA a diferença.

ADUBO ou a Sutil arte de escoar pelo ralo: Sextas e sábados, às 21h; domingos, às 20h; R$15,00 - Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho