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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Ensaiando o Ensaio

Todas as noites, sonho que sou a moça do livro do Saramago. Guio o meu marido e mais três integrantes do Teatro Insano pelos escuros corredores do manicômio em que fomos encarcerados. E, no personagem que encarno nestes sonhos, mora um medo constante de cegar assim que abrir os olhos. "Mergulhar no branco leitosa da vista", diz Saramago. Desde que comecei a ler O Ensaio sobre a Cegueira, desperto todos os dias ansiosa por enxergar o teto do meu quarto e comprovar que ainda vejo.

Maluquices à parte, isso nos prova duas coisas: 1) Saramago é atemporal e tão tão bacana, que não precisa de pontuação para contar uma das histórias mais cheias de significado que já li. Não é à toa que é um "crássico"! Só não morro de medo do filme Blindness, inspirado na obra, porque confio nas mãos competentes de Fernando Meirelles e na atuação de Mark Ruffalo. Essa semana descobri que dois personagens legais do livro são japoneses no filme e li a descrição de uma cena que me parece linda. Ansiosa....tomara que não seja bomba como foi O Amor nos Tempos do cólera, minha mais recente decepção.

Enfim, não terminei ainda de ler, mas estou devorando o Ensaio e lambendo os dedos.

Ah, é! Já ia me esquecendo.... 2) sou altamente impressionável e preciso parar de ler antes de dormir.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O fim do universo é uma biboca

Fechei o livro e apesar de estar com cãibras internas de tanto rir, um grande pesar se instalou nos meus ombros. A humanidade é mesmo um saco. Douglas Adams me convenceu. Não... na verdade, os pais que matam filhos, os caçadores de baleia, os políticos corruptos e as modelos-atrizes sem talento me convenceram.

Depois de ler O Restaurante no Fim do Universo tive raiva dos analistas de marketing, dos decoradores e dos cabelereiros, todos com seus linguajares "entendidos" e chatos. Para quê precisamos de palavras como "benchmarking" e "balaiagem". Argh...somos seres incrivelmente burocráticos e prolixos. Sei, parece papo de gente eco-chata e deus me livre virar hippie, mas realmente os humanos são um porre.

Ah, quer mudar de planeta? Não adianta. O universo inteiro é cheio de cretinos. Pelo menos é o que constatam Ford Prefect e Arthur Dent em mais uma desventura pelo espaço. Cheio de flashbacks e flashforwards (nossa, que saudade de Lost), a continuação de O Guia do Mochileiro das Galáxias é ainda mais engraçada do que o primeiro. O ponto alto é quando Zaphod Beeblebrox encontra o Homem que rege o Universo. Adams é o tipo de cara que não tem medo de ir fundo numa idéia, por mais desconexa que ela pareça com a história. Tudo rende pensamentos cabulosos.

Depois de ler o livro, a sensação que fica é de que a vida é ridiculamente simples. E Douglas Adams parecia ter total consciência disso. Penso que era um sujeito iluminado. Por outro lado, não é possível entender tanto e não ser um bocado triste. Vai ver que é por isso que seu coração parou ao 49 anos. Não havia mais nada para saber.

Por que a resposta do Universo é 42? Não me contem...quero terminar de ler a série para descobrir.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Cegueira

Não sei se você sabe, mas o Fernando Meireles está adaptando O Ensaio Sobre a Cegueira, do Saramago. É uma co-produção Brasil-Canadá, filmado metade em São Paulo metade em Toronto. É a primeira vez que o autor português libera os direitos de uma obra sua para adaptação cinematográfica.

Não tem que se preocupar. Se Meireles fizer por Cegueira o que fez por O Jardineiro Fiel, certamente será um filme lindo. O processo pode ser acompanhado, em parte, através do blog que o diretor montou. Atualiza sem muita freqüência, mas mata a curiosidade. Já dá pra saber, por exemplo, que Danny Glover será o Velho da Venda Preta.

Agora vamos lá, ver como pode ficar um filme quase impossível de se fazer, onde todos os personagens não enxergam nada durante a história.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Querido e raro leitor,

Desculpe ficar tanto tempo sem escrever-te. Estava ocupada me deixando levar pela logística ilógica da vida. Mas achei urgente, muito urgente, vir aqui te dizer sobre um livro que acabei de ler. Amós Oz é o escritor do pertinente, dolorido e cruel A Caixa Preta, que não tem nada a ver com desastres aéreos, mas com últimas palavras. E sabe, não consigo lidar muito bem com o derradeiro. O escritor israelense é um daqueles autores que você precisa ler antes de....bem, você tem que ler. Vencedor do Príncipe das Astúrias de Letras 2007, o homem é fera. Escreve sobre palestinos e israelenses como ninguém, afinal é co-fundador do movimento pacifista Peace Now.

O livro é um baú de cartas antigas, cheirando mofo. Eu me senti invadindo a intimidade de Ilana, Alex, Michel e Boaz que trocam mensagens, telegramas e longas longas cartas entre si e com outros personagens. Pelo o que cada um conta, você vai remontando a personalidade deles e percebendo os joguetes e intrigas que permeiam todas as relações humanas. Ora revelendo mais do que querem, ora escondendo o que já é óbvio, os personagens se consomem. E todos são tão imensamente complexos e miseráveis, que você começa a se identificar com as maldades e felicidades furtivas de cada um. Não somos nós também seres tristes, leitor?


E você percebe durante o relato desesperado dos personagens, que cada um só pensa em si mesmo. As relações - árabes-judeus, esposa-marido, filho-pai, família-sociedade- todas elas, acredite, são iguais. Afinal, a base é sempre a mesma: homens. Somos a destruição de nós mesmos e dos outros, mas também a resposta de todas as nossas angústias. Depois de ler A Caixa Preta, você tem aflição de estar viva.

Mas e você? Me conte o que tem visto por aí! Mas por favor, não me ligue, escreva, porque as letras já dizem o bastante. Quero ficar um bom tempo longe de ti. E de mim.

Sinceramente Sua,

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Sexo, drogas & (insira aqui)

Continuamos nossa cobertura detalhada minuto-a-minuto da carreira de Mayra (filha do) Dias Gomes. Em entrevista hoje ao G1, a escritora ameaça lançar outro livro, agora tratando de solidão, insônia e morte. Frase digna de contracapa:

"Não escuto praticamente nada moderno. Eu prefiro tudo o que foi feito antes. Sempre digo que nasci na época errada."
Não percam, a qualquer minuto, mais clichês literários desta que já foi eleita (pelo menos neste blog) a grande promessa dessa nova geração.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Fenômeno Harry Potter

  • Filme: Harry Potter E A Ordem da Fênix - mais voltado a quem já leu ou acompanhou os quatro filmes anteriores; este não contextualiza. É seu maior defeito. De resto, é um filme com um ritmo acelerado e que cortou muito da prolixidade de Rowling neste livro. Vale, ainda, por muitos dos trunfos que o diretor David Yates inseriu, como a temática política e alguns interessantes trechos da raiva de Harry Potter frente aos acontecimentos mórbidos. Aliás, Daniel Radcliffe e Rupert Grint cresceram e muito em suas interpretações. Mas quem rouba a cena é Imelda Stauton, com sua Dolores Umbridge mais do que apropriada. Usando um clichê, foi um show à parte;

  • Livro: The Deathly Hallows - na FNAC, plena sexta de lançamento do último livro da série, havia muita gente, na maioria adolescentes, loucos, sedentos, quase espumando pelo encerramento da saga. Às 20h, um clamor. Uma gritaria. E uma fila se fez e muita criança com cabelo estilo Snape, chapéus e oclinhos Harry Potter se acotovelando para conseguir o exemplar, pagar e sair lendo;
  • Os críticos em geral têm dito que o último livro agrada por ser uma obra literária madura e não só de fechamento. Dizem que Rowling caprichou e não poupou esforços para redigir um encerramento digno à saga. Vamos ver...
  • O que mais me assusta é: a versão é em inglês. Portanto, ou o monte de crianças e adolescentes já sabem ler inglês ou compraram só pra dizer que têm, mas vão acabar lendo resenhas na Internet de alguém que realmente leu. Aposto na segunda opção.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

"Quando a morte decide contar uma história, você deve parar para lê-la"

Esta é a frase estampada na contra-capa da Menina que roubava livros, do australiano Markus Zusak. Confesso, por espontânea vontade eu não teria comprado o livro. Não sou adepta dos best-sellers e tenha plena consciência de que é por puro preconceito. Simplesmente não confio no gosto de milhões de leitores, sempre tão ávidos por um novo Paulo Coelho ou um exemplar fresquinho do Diário de Brigdet Jones (aliás, por favor Helen Fielding, pare de contar a história dessa gorda!). Na lista dos mais vendidos da New York Times há 43 semanas, eu o ganhei de um grande amigo e resolvi encarar.

No começo, a impressão que eu tinha era de que o autor, todo cheio de recursos supostamente criativos e engraçadinhos, escrevia cada linha pensando: "Cara, eu sou foda. Falar fingindo que sou a morte é genial! Vou ganhar milhões!". Será que ele não tinha ouvido falar de um livririnho chamado Intermitências da Morte, de um tal de José Saramago? E um tal de Jonathan Safran Foer, que ficou notoriamente conhecido por usar recursos geniais em seus livros? Pois sim, de fato, Zusak ficou famoso e rico, mas seu livro não tem metade da criatividade dos outros dois.

Sei, nem todos os livros precisam ser geniais para serem bons de ler. E esse é o caso da Menina. De fato, a história de Liesel Meminger, uma menina alemã abandonada pela mãe, que viu o irmão morrer e é adotada por um casal pobretão, envolve o leitor sim. Os personagens secundários vão sendo apresentados com simpatia e todos, até os piores, como Hitler ganham um carisma extra.

Dos judeus escondidos no porão aos alemães mais irracionalmente patrióticos, todos ganham a mesma coloração. Todos são vítimas do ambiente, todos tem justificativas mil, mas poucos fazem escolhas ou são corajosos o bastante para mudar o que acontece nas suas vidas miseráveis. Eles ensaiam, mas caminham com a inércia das coisas ao seu redor.

Egocêntrico, o autor achou tão triste a história que iria contar, que acabou fazendo ela ficar suave até demais. E previsível. Até mesmo o final, supostamente violento, acaba tendo ares de cena de sexo em novela: mostra a cena, mas tampa o que realmente interessa. No caso do livro, a dor .

Seria bacana se o autor não parecesse estar o tempo todo ensaiando para entrar em sua melhor parte. Fora o tom dramático e completamente humano que A Morte, narradora da história, tem. Ela fica se lamuriando pelos cantos por ter que ceifar a vida das pessoas, tal qual você reclama de ter que ir trabalhar todos os dias. E o pior: Dona Morte fica o tempo todo revelando o que vem a seguir, e quando finalmente chega o episódio, você já sabe tudo. Aí cadê a graça?

A Morte é uma grande estraga-prazeres.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

O outono do Patriarca

crédito: William Fernando Martinez/AP
Minutos antes de ir embora pela última vez de Aracataca, ele prometeu a um amigo que só voltaria a cidade quando sentisse a morte lamber o pescoço. Vinte anos se passaram e ele não ficou mais jovem. Talvez nem mais velho. No mundo onde vive, o fantástico acontece sem a pressa do tempo e afinal, Macondo nunca envelhece. Há 20 dias atrás, Gabo voltou à cidade natal.

A locomotiva que o levava a pequena cidade no interior do Caribe Colombiano saiu com atraso da estação de trem. Percebendo a importância da data e talvez a nebulosidade que envolveria a volta de Gabriel García Márquez a sua origem, os fãs criaram tumulto e cercaram o escritor de suas ansiedades. Brincalhão, ele se sentou ao lado de sua esposa Mercedes e acenava da janelinha.

No meio da viagem porém, uma ponta de tristeza o invadiu. Olhava as árvores ficando para trás inseguro e melancólico. "Gabito sempre evitou voltar ao seu povoado natal por medo. Embora não o diga publicamente, para ele retonar a lugares onde cresceu é como refazer seus passos e isto o faz refletir sobre a morte", declarou à Folha, Guillermo Valencia, um de seus amigos de infância do colégio Montessori de Aracataca.

Para quem leu Memória de Minhas Putas Tristes sabe que Gabo anda se preparando para o porvir. Aos 80 anos, ele vê a vida com fantasia, é fato, mas com uma pitadela de angústia de quem não se sente mais tão ligado ao agora. Pode não ser o anúncio da morte, mas ao pisar na cidadezinha, uma onda de borboletas amarelas seguiu seus passos e iluminou o caminho. E se for mesmo o fim, foi do jeito que deveria ser: Surreal.

*Oportunismo à parte, sai a edição comemorativa de Cem Anos de Solidão em espanhol. Outra boa dica são os pokets, também em espanhol, de todos os livros de Gabo a meno de 25 reais. Nunca é demais.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Lugar-comum

A geração de novos autores me dá dor no pâncreas. São sempre os mesmos, mesmo quando não são. E a literatura continua ruim. A nova agora é filha do falecido Dias Gomes, autor de ótimas novelas (sim, elas já existiram) como Saramandaia e grandes roteiros, como O Pagador de Promessas.

Mayra Dias Gomes, de 19 anos, escreveu Fugulaça, romance semi-biográfico regado a sexo, drogas e rock'n'Roll. Supostamente, ela passou por uma fase conturbada na vida, quando sofreu muito, andou com pessoas ruins, sentiu-se solitária e fez escolhas erradas. Alguém avise a garota que isso é comum e tem nome: adolescência. Um trecho da obra:

"Ele me pegou com vigor pelos braços e me jogou na cama. Eu tentei me levantar mas ele me empurrou novamente, colocando a mão nos meus seios. Olhei pro teto e vi as estrelinhas que brilham no escuro grudadas. Eu costumava fazer pedidos a elas com espírito de criança intocada que não conhece o mundo."
Por favor, façam eles pararem!... E eu que achava que o fundo do poço da literatura nacional atendia pelo sobrenome Young. Era só o começo...

terça-feira, 17 de abril de 2007

Time daqui, time de lá

Panelinha é uma coisa feia. Na escola já sofríamos com isso, na faculdade era quase ridículo, no trabalho sempre existiu. Mas quando a coisa toma rumos gigantescos e envolve R$ 1,2 milhão, aí você começa a se questionar de verdade.

O assunto já está rodando há algum tempo. Tudo começou com uma idéia chamada Amores Expressos. Nela, 16 escritores brasileiros iriam (COM TUDO PAGO) para dezesseis diferentes países atrás de uma boa história de amor. Na volta, os digníssimos escreveriam sua historieta, a Cia. Das Letras publicaria e quiçá, os contos renderiam um filme. Tava na cara que ia dar polêmica. Os escolhidos eram todos amigos. "Os critérios de seleção foram de afinidade literária, interesse editorial e química com as cidades de destino", declarou à Folha João Paulo Cuenca, escritor carioca que organizou a festa e fez a listinha dos convidados vips: Antônio Prata (Xangai), Daniel Galera (Buenos Aires), Chico Mattoso (Havana), Lourenço Mutarelli (Nova York), Antonia Pellegrino (Bombaim), Bernardo Carvalho (São Petersburgo), Marçal Aquino (Roma) e Sérgio Sant’Anna (Praga), só para citar os mais famosos. Ou para quem gosta dos escritos brasileiros contemporâneos, é a turminha de sempre.

Eles são bons? São. Eles precisam viajar para escrever um romance? Não, necessariamente.

E para agravar, os escritores que ficaram de fora da boquinha resolveram abrir o maior berreiro, movido à dor mais sincera do ser humano: dor de cotovelo. Em entrevista na Folha de S.Paulo, os dois lados se bombardearam de acusações e todas me pareceram extremamente dissimuladas. Porque no fundo, no fundo, é a mesma situação da panelinha da escola. Quem tá dentro se acha especial, quem está fora se acha um merda. Simples assim.

E fico tristonha com isso. Porque são escritores que eu realmente gostava. O povinho que começou escrevendo em blog, se esforçando para publicar livros, dando um sopro de modernidade na literatura. Decepciona, porque no fundo, são um bando de filhinhos de papai, que bem poderiam ter pego o dinheiro do bolso e ido viajar o mundo em busca de vivências extraordinárias, não precisavam meter a mão no dinheiro público (esclarecidamente captado pela Lei Rouanet).

E aí, no exterior, você vê um fantástico Jonathan Safran Foer. Com dois livros extremamente ricos e inovadores, você se pergunta se ele precisou de toda essa parafernália para ter uma idéia que realmente modificou a cena literária atual. Tá certo, não podemos ficar comparando, mas também não te soa um tanto mesquinho? Nós realmente não mudamos, crescemos mas continuamos as mesmas crianças pirracentas de sempre.


Sei, essa é uma notícia atrasada, mas é que só agora, fiquei sabendo por fontes, que o primeiro lote de escritores "expressos" já embarcou para seus destinos glamourosos.

Ê, a vida é boa, né, gente?

* Detalhe, que eu estou lendo O Sol se Põe em São Paulo, exatamente do "enturmado" Bernardo Carvalho.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Feito à mão

Como responsável pelo site do Teatro Insano - e mais um bom bocado por aí - sei o quanto é complicado fazer um espaço legal e sem exageros na internet. E, mais complicado, que tenha ar de novidade.

Eu, que sou adepto da simplicidade, adorei o site da escritora e atriz Miranda July, feito para divulgar seu novo livro, No One Belongs Here More Than You. Se as histórias forem tão boas quanto a idéia do site... (em inglês).

quarta-feira, 7 de março de 2007

Teatro não é instrumento a serviço da literatura

Anatol Rosenfeld é um judeu que deixou a Europa durante o nazismo e estabeleceu-se no Brasil; estudou filosofia e aqui lecionou palestras e escreveu ensaios teatrais influenciando muitos teatrólogos. O texto que eu li é de uma palestra onde Anatol fala da essência do teatro e do personagem e como esta essência nasce justamente quando o ator se transforma em personagem.


"A essência do teatro é, portanto, o ator transformado em personagem. O texto é um bloco de pedra que será enformado pelo ator (diretor). O texto contém apenas virtualmente o que precisa ser atualizado e concretizado pela idéia e forma teatrais. A atualização é a encarnação, a passagem de palavras abstratas e descontínuas para a continuidade sensível, existencial, da presença humana".

É uma questão que a gente costuma se perder. Falar da cena é fundamental inclusive para encontrar argumentos que a fundamente mais, porém existe um abismo entre "falar cena" e "fazer cena". Ouvi milhares de vezes "é teatro, e teatro não fica só na fala, tem que ir pro palco, tem que ir pra cena, tem que fazer pra ver". E é puramente real, é aí que mora a diferença de teatro e literatura.

O teatro e a literatura serão simplesmente literatura até a hora que passarem a ser encenados, a partir daí existem escolhas feitas especialmente para aquele texto e a responsabilidade é muito do ator que, dentro daquele contexto, preenche as lacunas que a história deixa em branco. "O texto deixa indeterminada uma infinidade de momentos" e é neste momento precioso que vale mais que um diamante que a arte teatral se estabelece como viva e pulsa, caso contrário a identificação do público com esse personagem não acontece. E não acontecer faz o canal que é o teatro falhar, se este é troca e "o homem, de fato, só se torna homem graças à sua capacidade de separar-se de si mesmo e identificar-se com o outro".

segunda-feira, 5 de março de 2007

Lost in translation

Como eu me descobri japonesa através da literatura

García Márquez, Jostein Gaarder, Saramago, Safran Foer, Woody Allen, Guimarães Rosa, Hilda Hilst, Salman Rushdie, Nick Hornby. Todos eles passaram pela minha vida, mas eu estou sempre em busca de mais. Eles voltam, remexem aqui dentro, nunca são esquecidos e fazem parte do que sou, mas hoje, no meu post de estréia, vou falar sobre um autor que nem ao menos figura entre os meus livros preferidos, mas que me fez entender muitas coisas sobre mim. Vou te explicar porquê.

Minha vida inteira briguei para me livrar desse estigma de japonesa. Tudo que se referia à cultura oriental era repudiado, do alto da minha ignorância juvenil, achava que era muito óbvio gostar do que meus conterrâneos gostavam. Digo ignorância, porque de fato era. Era conhecer o raso, achar que cultura oriental se resumia a mangá e j-pop. Foi então que ele surgiu. Um japonês intrincado, soturno, pornográfico, diria até um pouco doentio. E com ele, descobri o lado B do Japão. E o pior (ou melhor): assim como eu, tantos jovens orientais também se sentiam perdidos dentro da própria cultura.

Haruki Murakami fala sobre renegar o Japão tradicional, sobre fugir a vida inteira dos estigmas e acabar descobrindo que não tem como escapar do que somos. Nascido em Tokyo, ele se engajou na luta contra guerra do Vietnã, formou-se em dramaturgia e fugiu (ele também!) para os Eua e Europa. Ganhador de vários prêmios, Murakami tornou-se um dos maiores escritores japoneses e um dos preferidos dos jovens. Em seus livros tudo é contemporâneo e recheado de signos. Eu, japonesa paraguaia que sempre fui, só fui entender o teor de sua obra depois de ir morar no Japão pela segunda vez. É um livro tão cotidiano, tão cotidiano, que talvez só faça mesmo sentido para quem já morou por lá.

É o andar de bicicleta na neve, o telhado curvado das casas antigas, o cheiro das compotas de nabo, a melancolia das colegiais de saias plissadas. O moderno com cheiro de antigo. O ranso da guerra, da bomba, do orgulho ferido de uma nação e das implicações disso nas gerações de agora. Tudo misturado com referência à filmes americanos, livros estrangeiros e músicas dos Beatles, Radiohead...

Estou lendo atualmente Norwegian Wood, mas já li Caçando Carneiros, Dance Dance Dance e Minha Querida Sputnik (o melhor dele) todos lançados no Brasil. A tradução se perde um pouco pelo caminho e simplifica algumas passagens, mas não chega a atrapalhar.

Por coincidência, Bravo! também está sugerindo Haruki Murakami na edição deste mês. Eu, particularmente, não indico a leitura para ninguém, porque não é um livro poético, inspirador e não tem um enredo muito envolvente. É um livro melancólico para poucos. E quando eu digo isso, não se sinta ofendido. Quero dizer que é um daqueles livros que, diferente de García Márquez e Saramago, tem um público-alvo muito restrito. Leitores curiosos podem se interessar também, claro, mas para os japoneses da minha geração é como se alguém traduzisse as dúvidas em letras. Se tenho mais clareza desse ranso que me invade hoje, devo grande parte à Murakami e seu pessimismo crônico, mas carregado de luz.