quinta-feira, 7 de junho de 2007

Pra querer revolução

Fato que não tendo dinheiro em pleno feriado, você vai acabar numa locadora para alugar algum clássico que você sempre quis ver mas nunca deu tempo. Pelo menos eu sou assim.

A Blockbuster pode impressonar. É cara, custa a meia de uma entrada no cinema mas naquele corredor de filmes brasileiros você encontra relíquias. Passei lá hoje e entre Cronicamente Inviável, Quando Vale ou É Por Quilo? e Lavoura Arcaica eu fiquei com Cabra-Cega.

O tempo é da ditadura militar, acredito eu que os brasileiros vivem relembrando essa parte porque devia ser legal saber como é uma revolução. O personagem: Thiago (Leonardo Medeiros), um militante procurado pelo governo sendo obrigado a ficar escondido num apartamento. Ele, revoltado, não quer ficar, faz greve de fome, diz que o dever de todo revolucionário é fazer a revolução.

Fazer a resenha do filme seguindo o estilo das postagens é difícil principalmente quando move você. A atuação é boa, intensa, de final pra aplaudir de pé. De verdade e sem exageros. Com Jonas Bloch como Matheus, o líder do partido militante que deixa transparecer no olhar o medo de revolução falhar, da idologia se perder em meio a tantas mortes. Mas morte é só um detalhe pra quem quer liberdade e sente pulando dentro do peito uma vontade de lutar por aquilo que acredita.

Se você gosta de história vai gostar do filme, dá saudade daquilo que a gente não viveu mas já nasceu cansado. Com Roda Viva de Fernanda Porto e Chico Buarque o filme traz aquela vontade de fazer a revolução.

"Mas pra fazer revolução, você precisa de muito mais do que uma frase de efeito". Pra ter vontade de viver numa sociedade tão a-política.

No músculo oco do coração

Pra você que ainda está em dúvida para assistir Amores Dissecados, este post pode ajudar. Em agosto do ano passado participamos do XI FESTIL de Pindamonhangaba (terra tão frutífera). Ganhamos sete prêmios, incluindo o primeiro lugar de espetáculo adulto. O juri, formado por praticantes e interessados em Teatro, produziu uma belíssima resenha na noite de nossa apresentação. Foi a seguinte:

"Como uma proposta fragmentada pode nos levar à catarse? Poderíamos nos debruçar sobre a literatura e passarmos horas divagando nas infinitas possibilidades ou então sermos arrebatados pelo espetáculo Amores Dissecados. E porquê?

1. Um trabalho sério de pesquisa artesanal, sincero, ora denominado teatro colaborativo, que se concretiza a partir da generosidade dos integrantes da companhia: atores-técnicos-diretores-dramaturgos.

2. Tratando do tema 'Amor' sem as pieguices, com a justa dimensão da tragédia, sugerindo imagens que comungam/dialogam com o público. Ressalte-se nesse aspecto que, na apresentação de hoje, uma platéia descompromissada e que ainda assim se rendeu às armadilhas do amor.

3. Um elenco afinado, com interpretações precisas, condizentes com a partitura de um 'spalla' ou desconcertantes como os dribles de 'Garrincha'.

4. Uma direção na consciência de 'nós', alicerçada pela parceria com os intérpretes-criadores, que pelo que nos parece, abrem mão de uma estética pessoal em benefício do coletivo, sem impôr o ritmo industrial que a arte contemporânea se meteu. Pelo contrário, com a paciência de quem espera o momento certo para a obra desabrochar.

5. Uma sonoplastia tirada do baú, que surge como se nunca tivesse envelhecido. Essas verdades cantadas tocam na alma e doem absurdamente no cotovelo. Somente sendo brasileiro para saber o que é sambar com a nostalgia, amor não correspondido/concretizado, ou ainda batucando no músculo oco do coração. Ou quem sabe remexendo nos amores dissecados.

Assinam os jurados

Fábio Mendes
Feu de Andrade
Márcio Douglas"

quarta-feira, 6 de junho de 2007

O Amor do Sim

Se existe uma atriz que pode personificar o TEATRO, essa é Ângela Barros. Sempre surpeendente, de uma energia fortíssima, uma mãezona, tal e qual uma Cacilda Becker de nosso tempo. Se Cacilda dizia que "se fingia que cantava, todo mundo acreditava", Ângela pode dizer: "se eu interpretar o próprio Teatro, as pessoas irão acreditar". E é isso o que acontece em O Amor do Sim, em cartaz no Espaço dos Satyros Um, na Praça Roosevelt.

Ela literalmente rouba a cena dos outros competentíssimos atores nessa comédia de Mário Viana, integrante do projeto E Se Fez a Praça Roosevelt em 7 Dias, com uma peça para cada dia, ligada à Praça que abriga vários teatros. O Amor do Sim é a de segunda-feira. Comédia leve, como deve ser o começo da semana. Entretanto, Viana insere pitacos interessantes, aproveitando o encontro de quatro personagens distintas: o espírito do Teatro, um iluminador (Otávio Martins), uma manicure (Flávia Garrafa) e um homossexual (Alex Gruli).

A manicure Sueli foge da barbárie que assola o mundo lá fora e é salva por um iluminador, Louro, que a ajuda a se esconder no teatro. Eles acabam se interessando um pelo outro quando descobrem a existência do espírito do Teatro, de nome Dirce (Ângela Barros). Entretanto, o homossexual Buri surge, também fugindo do caos, para colocar fogo na relação entre o artista e a esteticista.

Aparentemente despretensiosa, a comédia lida com situações para provocar o riso, muitas vezes auto-referenciais e metalingüísticos, não bastasse a cenografia reproduzir o Espaço Um dos Satyros na verossimilhança-espelho. Só faltava cópias do público sentado. Sueli estranha aquele teatro, o teatro não-convencional, sem drapeados e ornamentos. É a voz do dito "povão", que credita ao Teatro a alcunha de "difícil de ser entendido" e elitista. Quando a manicure diz a Dirce sobre as novelas, o espírito do Teatro quase se apaga.

A comicidade surge desses tipos, logicamente: um iluminador descolado (porque se entende que gente de teatro é assim), um homossexual afetado e uma manicure alienada. As interpretações estereotipadas, numa primeira análise, seriam passíveis de crítica ferrenha, já que é o que se faz atualmente: qualquer falta de complexidade de personagem é tremendamente criticada; tipos só na Commedia Dell'Arte... Mas eu não achei que foi o caso. Há uma proposta.

Os tipos não pretendem atingir só o riso. Na verdade, servem a múltiplas funções: abrangem a variedade de pessoas na Praça Roosevelt (gays e pessoas da classe teatral) e o povo que desconhece o lugar (moradores da periferia). Objetivam o macro, o foco maior: a Barbárie contra a Arte, o Teatro, o Povo, os Artistas e os Excluídos. Além do mais, os detalhes de composição que cada ator utilizou para as personagens retira o viés pejorativo do "estereótipo" daqueles seres ficcionais. Ponto para Alexandre Reinecke, o diretor, e os atores.

Com todos esses prós, um contra me deixou de dar nota 10 à comédia: a resolução rápida dos conflitos estabelecidos numa lógica muito bem aceita para comédias românticas, mas inaceitável para dramaturgos e encenadores experientes. Entretanto, a peça diverte e é crítica, coisa que poucas comédias hoje fazem. Portanto, relevemos.

O Amor do Sim. Direção: Alexandre Reinecke. Elenco: Ângela Barros, Flávia Garrafa, Alex Gruli e Otávio Martins. Onde: Espaço dos Satyros Um, Praça Roosevelt, 214. Quando: Segundas, 19h. Até 30 de junho.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Amor é assim, alegria, tristeza, tudo repetição do mesmo princípio...

O fim de semana durou um ano. Estreamos no último sábado (dia 2) e tudo era extremamente reluzente. Divulgação a postos, como nunca havia sido feita antes em dois anos de peça. Apostamos alto, angariamos fundo, entramos para mudar o jogo. E estávamos exaustos sim, mas a expectativa era muito maior do que todo o resto. As luzes afinavam, enquanto a maquiagem preenchia as imperfeições e a caneta deslizava nas costas do ator.


Não era a primeira vez, sabemos, estamos calejados, vividos de Amores e ainda assim, crus, porque cada segundo é novo quando se está jogando. E no meio de todas aquelas sensações repetidas, você entende o porque continua fazendo isso sem ganhar um tostão, se desdobrando em dois trabalhos, querendo sempre ir além. Queríamos um prêmio? Ganhamos. Queríamos temporadas? Conseguimos. Queríamos ir pra São Paulo? Cá estamos. Difícil não ficar feliz com o que conseguimos, difícil também querer parar por aqui, achar que está bom. Nunca está. Se deu alguma coisa errada? Sempre dá. Cabeçadas no escuro, nervosismos à parte, cenas ralentadas, e vamos seguindo. A graça é ir consertando as imperfeições, buscando aquilo que não existe.

Talvez fosse só paixão...

A taça levanta, os panos vermelhos prendem, o guarda-chuva abre. E no fim as palmas, as críticas, as risadas no camarim de alívio. No dia seguinte começa tudo de novo. Estamos em cartaz. Passa lá.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Amores no Mix Brasil

Uma reportagem muito legal sobre o espetáculo saiu no site Mix Brasil. O texto enfoca o lado dos relacionamentos gays mostrados na peça. Muito bacana. Para ler, dê uma clicada neste link.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Troca-troca

Agora que a concorrência está se mostrando acirrada, a ex-toda-poderosa Rede Globo começa a mexer no time. Com os elencos ficando disputados, autor reservando atores e atrizes para lá e para cá, a Record querendo abocanhar o pessoal, e as "celebridades" chamadoras de audiência se revezendo num empurra-empurra pra vem quem consegue ficar mais do que cinco minutos em exposição, os teledramaturgos estão enxugando suas histórias. Enxugando num sentido literal.


Em Páginas da Vida, Manoel Carlos se embananou todo pra se virar com tanta personagem colocada na história e sem função. Agora, em Paraíso Tropical, foi uma estratégia de Gilberto Braga em "liberar" os histriões para outros produtos da casa. Logo no início, Ísis Valverde, a Thelma, morreu caindo de uma passarela na Lapa. Liberada. Depois, Júlio Rocha, em participação especial, deu uma de chefe e logo depois entrou em Pé na Jaca.

Agora, Reneé de Vielmond (a tal Ana Luísa Cavalcanti) e Rodrigo Veronese (o par romântico dela) é que estão dando adeus. Ainda saem Maria Fernanda Cândido (que ficou sem função na trama depois que Reneé descobriu seu caso com Tony, digo, Antenor Cavalcanti), Othon Bastos (que vai morrer depois que descobrir que a neta má lhe roubou) e Sérgio Marone (que vai preso). Quem mais vai sair?

A circulação tem que ocorrer. As saídas de uma trama para outra estão corridas. Frenéticas quase. E nessas quem se der bem, se deu. Quem não se deu. Sorry. Sinal dos tempos. A Globo precisa renovar o elenco e ainda está engatinhando. Ainda investe nos modeletes, mas já está abrindo os olhos e vendo que modeletes não seguram as tramas. Sorte de pessoas como Marcelo Médici, ex-Fládson de Belíssima e que agora estréia em Os Sete Pecados, mais um do Walcyr Carrasco...

terça-feira, 22 de maio de 2007

Prato frio

Vingança é compreensível, porém condenável. Faz parte do hall dos sentimentos feios e inglórios, mas que todo mundo entende. Que diga Charles Bronson e suas aventuras para vingar os inúmeros parceiros policiais e filhos mortos de sua filmografia. Matar alguém que lhe fez mal é justificável. Quando tratado com sutileza e inteligência então, fica ainda ainda mais difícil não ficar do lado do justiceiro. E caímos como patinhos na lagoa de sangue que se forma em Sympathy for Lady Vengeance (em cartaz no país), batizado no Brasil de Lady Vingança (lei de vingança?).

Depois de Sympathy for Mr. Vengence (2002) e Oldboy (2003), o terceiro filme da trilogia sobre vingança do diretor Park Chon Wook segue a mesma linha dos seus antecessores. Violento sim, surreal sim, lindo sim. Geum-ja (Young-ae Lee) passa 13 anos presa acusada de assassinar um menino de 8 anos. Infanticídio é pecado mortal em qualquer lugar do mundo e ela, problemática, acaba levando a culpa pelo crime que seu amante, um professor de jardim da infância desequilibrado, cometeu, papel do ótimo Choi Min-Sik, o Oh Dae-su de OldBoy. Mais amadurecida, ela sai da cadeia e decidida a matá-lo.

Com seus três atos claramente definidos, o filme começa com um perfil das mulheres presas junto com Geum-ja que acabam ajudando na vingança. Em seguida, ela busca a filha que descobre ter sido adotada na Austrália e a história termina com a vingança propriamente dita. A história casa tão perfeitamente com a trilha sonora e com a fotografia, que mesmo com um furo aqui, um esquecimento ali, o filme consegue dizer claramente a que veio.

Mas não se engane, nada aqui é leve, gostoso, saudável. As situações beiram o absurdo e me fizeram lembrar daquela fase non-sense do cinema europeu. Nuvens com frases, relicários, capas de chuva ensanguentadas e um bolo impecavelmente branco. Isso sem contar a indefectível sombra vermelha que transforma a personagem de uma menina boazinha para uma matadora sanguinária.

Isto não é um spoiler, afinal, você sabe que ela irá matá-lo antes mesmo de sentar na poltrona do cinema. O que está em questão aqui é como irá fazê-lo e como se sentirá nesta busca. A redenção tem seu custo. E diferente da vingadora-padrão, a coreana pode até matar vestindo saltos, mas chora do início ao fim.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Arte Alka-Seltzer

Eu sabia que Dalí era um tremendo capitalista e tinha feito vários comerciais. Mas não tinha visto nenhum, até chegar a era YouTube. Fosse nascido nos dias de hoje, ele teria uma loja de camisetas com estampas descoladas.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

O que nenhum anjo sabe

Hoje os anjos de Berlim fazem anos. De presente, os alemães vão poder revê-los em tela grande. Enquanto que, por aqui, nem mesmo DVD não-remasterizado tem. A única cópia que tenho é pirateada de um VHS que já era copiado de um Mostra de Cinema na Cultura de 94.

Ah, mas é lindo.